Acho importante iniciar esse blog esclarecendo que quem o escreve é nada mais que um surfista de finais de semana (quando dá onda ou tem tempo rsrs) que sempre sonhou em surfar algumas das melhores ondas do mundo, um paulista radicado no RJ.
Para um surfista, o shaper não é apenas um fabricante de equipamentos, ele é o “tradutor” dos seus sentimentos dentro d’água. Ter um bom relacionamento com quem faz suas pranchas é, possivelmente, o atalho mais rápido para a evolução no esporte e o meu foi feito com Igor Pitasi, da Pitasi Surfboards.
Especialista em longboards, Pitasi, apesar da sua essência ser baseada nos pranchões, é aquele típico surfista que curte todos os tipos de equipamentos, que não condena as ideias trazidas pelo cliente. Outros dois fatores que me fizeram iniciar com ele, é o de estar geograficamente próximo, tendo oportunidades de surfarmos juntos e o dele ser um cara realmente dedicado ao que o cliente pede, no meu caso, sou um cara baixo (1,68) e pesado (90kg), devido a isso sempre busquei por pranchas com bom volume de flutuação porém no design performance.

Aqui estão os pilares que mostram por que essa conexão é tão importante:
Tradução de Sensações em Design: O surf é um esporte de sensações subjetivas. Muitas vezes, o surfista sente que a prancha “trava” na rabeta ou “enterra o bico”, mas não sabe explicar o porquê técnico.
Quando há confiança, o shaper consegue interpretar termos vagos como “queria algo mais solto” e transformar isso em ajustes precisos no rocker, no concave ou na distribuição de volume.
Personalização Real (O “Custom” de Verdade): Comprar uma prancha de prateleira é como comprar um terno pronto: pode servir bem, mas raramente será perfeito.
O Ajuste fino de um shaper que conhece seu estilo, seu peso e o tipo de onda que você costuma surfar vai criar algo específico para o seu momento atual. Evolução constante, ele acompanha seu progresso e se você emagreceu, ganhou força ou quer começar a arriscar manobras mais verticais, a próxima prancha já nasce com esses ajustes.

Feedback: O relacionamento com o shaper funciona quase como uma consultoria técnica.
Honestidade, um bom shaper terá liberdade para dizer: “Essa prancha que você quer não é a ideal para o seu nível agora”. Esse choque de realidade evita que você gaste dinheiro em um equipamento que vai atrasar seu aprendizado. Você passa a entender a hidrodinâmica por trás do que está sob seus pés, o que te torna um surfista mais consciente e crítico.
Suporte e Agilidade: No mundo do surf, acidentes acontecem. Ter “as portas abertas” na oficina facilita:
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Reparos urgentes antes de uma viagem.
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Prioridade na produção de uma prancha nova.
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Ajustes de última hora em quilhas ou copinhos.
Surf Trip Internacional
Uma surf trip internacional é o “teste de fogo” definitivo para a parceria entre surfista e shaper. É o momento em que o investimento financeiro, o tempo de viagem e a expectativa encontram a realidade das ondas perfeitas (ou desafiadoras).
Nesse cenário, a importância do trabalho conjunto ganha camadas técnicas e estratégicas que não existem no surf do dia a dia.
O Conceito de “quiver” estratégico: Diferente de surfar em casa, onde você escolhe a prancha no porta-malas antes de cair, em uma viagem internacional você está limitado ao que cabe na capa. Você precisa saber descrever exatamente para onde vai, “Vou para o Peru” exige um design (geralmente focado em bordas e projeção para esquerdas longas) completamente diferente de “Vou para a Indonésia” (onde se busca controle em tubos e velocidade em bancadas de coral).
Ajuste de Litragem e Densidade: Ondas internacionais costumam ter mais “pressão” e volume de água do que as ondas médias brasileiras. Flutuação e controle merece um destaque especial, o shaper pode sugerir uma prancha com um pouco menos de volume ou bordas mais refinadas para que ela “prenda” na face da onda mais potente porém fará perder no quesito importantíssimo que é a remada, saiba ser claro com ele para que essa balança venha da maneira adequada.
Em viagens para picos de pedra ou coral, o shaper pode fazer uma laminação mais forte (extra glass). Uma prancha quebrada no segundo dia de uma viagem para Maldivas pode arruinar o investimento de meses.
Por último as rabetas definem o tipo de onda, por exemplo, a escolha entre uma Round (para curvas suaves e controle) ou uma Swallow (para troca de borda rápida) é decidida nessa consultoria pré-viagem.
Responsabilidades Pré-Trip
| Papel do Surfista | Papel do Shaper |
| Estudar o destino: Saber o tamanho médio e o tipo de fundo (reef, point ou beach break). | Analisar o histórico: Usar a experiência de outros clientes que já foram para o mesmo local. |
| Testar os protótipos: Não deixe para estrear uma prancha nova direto na viagem. | Cronograma de entrega: Garantir que as pranchas estejam prontas e curadas (resina seca) semanas antes do embarque. |
| Feedback honesto: Relatar o que funcionou em trips passadas. | Sugestão de Quilhas: Indicar o jogo de quilhas ideal para o design que ele criou. |
Não chegue no shaper pedindo exatamente a prancha que o Italo Ferreira ou o John John Florence usam. Peça a prancha que vai fazer você surfar como eles dentro das suas limitações. Ter um shaper de confiança é como ter um mecânico de Fórmula 1 pessoal: ele garante que sua “máquina” não seja o fator limitante do seu desempenho.
Por Rogério Ruffo.